RECORDAÇÃO DA GUERRA DO ULTRAMAR MOÇAMBIQUE LUNHO E MALEMA:

Quarenta e seis anos se passaram após o 25 de Abril eu Bernardino Peixoto soldado corneteiro n.º 017 516 /72 fiz a minha recruta no Regimento de Infantaria n.º 13 em Vila Real de Trás os Montes,onde jurei bandeira para defender a Pátria.Fui transferido para o Regimento de Infantaria n.º 2 em Abrantes onde tirei a minha espacialidade de corneteiro.Ali fui moblizado para a guerra do Ultramar para a região militar de Moçambique.Passados seis meses fui transferido para o Regimento de Infanfaria n.º 1 Amadora.Pouco tempo depois fui para o aeroporto de Lisboa para embarcar num avião rumo a Moçambique 12 de Novembro de 1972.Hoje sou confruntado com um sentimento de abandono e de desprezo por uma Pátria madrasta.Pátria que eu julgava ser a minha porque foi a minha Pátria que me obrigou a lutar por ela.Hoje olham para mim como um inútil um traidor ou até mesmo um mercenário.

No Lunho também vivi um enorme drama fruto das derrotas e das vitórias que obtive ali se construíram vários heróis abitualmente explorados pelo regime fascista-colonialista mas ali se cometeram igualmente autênticos crimes de guerra.Estou à vontade pois cumpri com o meu dever vivi momentos difícies e até dramáticos mas tive a sorte de não me envolver em nenhuma acção que mais tarde me viesse a envergonhar.Tive o Sentimento que havia cumprido com o meu dever pelo meu país.

 

Portugal é um país ao contrário dos outros,que também tiveram as suas guerras em território ultramarino,esqueceu os seus veteranos de guerra.È notório que após o 25 de Abril de 1974 todos os governos tem desmonstrado uma certa vergonha quando se fala guerra do Ultramar e dos seus veteranos.Um tabú a que os outros países não fugiram e o mais irónico disto tudo é que estes governos que nos tem desprezado,nasceram de um 25 de Abril habitualmente organizado por nós militares  veteranos nessa guerra.

 

"PESSOAL DO NIASSA"

È bom verificar que nem todos os africanos, se esqueceram de Portugal,ou nutrem ódio contra a nossa bandeira.Se assim não fosse agarravam um camarada, negro Moçambicano, que levava a bandeira portuguesa às costas, os seus camaradas o esgafatenham-no todo.

Na minha opinião e na maioria dos portugueses. tratavamos bem os Moçambicanos, o problema era outro,a falta de assistência na saúde, na educação, mas nem nós portugueses da Metrópole, tinhamos isso,no tempo da outra senhora, portanto estavamos no mesmo barco.A guerra de libertação, serviu para alêm de dar a  a indepêndencia, aos povos das colónias,libertar também Portugal, daquele regime, que nos mantinha na mais negra miséria.

A MINHA VIAGEM PARA A GUERRA:

Acabadas as seis semanas do IAO no Regimento de Infantaria n.º1 na Amadora, e depois de um curto periodo de férias de "despedida," eramos mais de cem homens, que compunham a Companhia de caçadores 41 41 os gaviões, considerados prontos como carne para canhão, para o teatro de guerra em  Moçambique.

Esta primeira étapa da minha viagem, numa tarde de 12 de Novembro de 1972, terminou junto do aéroporto de Lisboa, foi uma das mais angústiantes de que me recordo, em toda a minha vida, e julgo não só para mim, mas para  todos nós, pois era a primeira próva concreta, a certeza ultima de ser verdade, aquilo que me esperava: A guerra!.O "Niassa.""O LUNHO" O avião dos "Transportes aérios militares.Boeing 707 preparado na pista, pronto a voar para Moçambique, até fazer a abitual escala em Luanda, para o seu reabestecimento.  Passado uma hora o avião já se encontrava, lá no alto rasgando as nuvens, com destino à cidade da Beira Moçambique, onde desembarquei. no dia 13 de Novembro de 1972,  nos deslocamos para a Unidade Militar.

No dia 15 de Novembro de 1972, embarquei com o primeiro escalão,  com o comandante da Companhia, num avião frétado, que fez escala em Nova Freixo.No mesmo dia, fui transportado para a estação dos caminhos- de -ferro ,segui um dia de comboio, para percorrer os sete centos e tal quilómetros de via férria, até Vila Cabral  Capital da Provincia do Niassa, conhecida na giria da trópa, pelo «ESTADO DE MINAS GERAIS.»Daqui eu ainda percorri cerca de 12 horas, os 60km que faltavam até Meponda, junto do lago Niassa, estrada em que foram "picados" todos os palmos de terra, que os rodados dos camiões,, haveriam de percorrer.

Mas o primeiro escalão da Companhia,  embarcou na lancha da Marinha, até Metangula cerca de 80 km, a Norte que teria que percorrer, aínda por picadas minadas, as dezenas de quilómetros  que faltavam até  ao Lunho.

Pendurado no meio da cozinha do rancho para quem era praça, preso por um arame, um ferro que servia de badalo ao sino. Improvisado este que servia de sinêta, era usado para chamar os praças, para se colocarem em fila ordenadamente, para ser servido as refeições.Estava sempre atento no Lunho não premitia descuidos, só a sua fama, era suficientemente, para despertar o mais sonolênto dos soldados.No Lunho, os "velhinhos" durante alguns dias ,ficamos ocupados com a tranferência de todos os materiais, da companhia que fomos render, para a nossa.Acabada esta entrega e dados os velhinhos seguiram o seu destino para outras paragens ali fiquei perdido no meio daquele capim que me rodeava em todo o meu redor.

"LUNHO" O "INFERNO ONDE OS ANJOS RIEM"todos os conselhos dados pelos "velhinhos," ali ficamos entregues a nós próprios e à nossa sorte sem experiência no mato e no Lunho (o inferno onde os anjos se riam). 

"Já se passaram 47 anos"  12 de Novembro de 2019 dia de S.Martinho"

NESTES POSTOS DE SENTINELA PASSEI MUITAS NOITES COM AS COSTAS AO RELENTO COMO UM CAÇADOR À ESPERA DE CAÇA:

ESTA PICADA DE NOVA COIMBRA ATÉ AO LUNHO ERAM 17 KM INTERMINÁVEIS CHEIRAVA A TRÓTIL A TERROR E A MORTE:

"NIASSA MOÇAMBIQUE "LUNHO" 1972".

🙂😀NO DIA 19 DE NOVEMBRO DE 1972, CHEGUEI AO LUNHO COM A C.CAÇ 41 41 OS GAVIÕES:

Esta Companhia ficou sediada num aquartelamento mais isolado, a Noroeste do Niassa..

O seu ambiente era só mato, e os Montes que vigiavam de perto e de longe..... montes mais pequenos, como lijombos, e grandes como o Chissindo.

Para os que estavam do lado de cá! O Lunho ficava lá no fim do mundo, mas para mim que estava  lá! aqueles 17 Km que me separavam da Companhia e da povoação mais próxima - Nova Coimbra, eram intermináveis....Era necessário todo o carregamento de frescos, que chegava num pequeno avião, e tinha de dar para toda a semana, 200 kg de carne fruta o correio, e pouco mais.Cada quilómetro teve uma história:era uma emboscada, era uma mina, que se detetava e era  levantada, era uma viatura que atascava, e obrigava horas e horas de trabalho angústiante, eram patrulhamentos.Havia sangue,  suor, e esforço dos que iam, para as operações, dos que iam fazer proteção, a uma coluna, dos que iam compor o itinerário, dos que iam carregar às costas, os reabastecimentos, que não chegavam lá de avião, porque a pista de aviação, durante as chuvas, se alagava, e o nome do Lunho metia muito respeito.Impressionava os que não estavam lá, porque os que estavam! estavam acostumados e jogavam a apreensão de cada dia, com a naturalidade dos que todos os dias, saiam de casa para o emprego.Era o aquartelamento e todo o horizonte: era vegetação rasteira, e plana, na maior parte da vista ao redor, e para o outro lado umas grandes montanhas,  a subida para a Miandica.Claro que  não havia lá mais nada, não havia viva alma à volta! As casernas de material pré-fabricado, em chapas de zinco, disseminadas mais ou menos irregular, desordonadamente.Para quem não soube, o Lunho ficava lá para o fim do mundo! aquela picada, cheirava a trótil, a destruição, e a morte.Nós soldados isolados, ali perdidos no meio do mato passou a ser, o centro daquele aquartelamento, onde só reinava o terror, e o medo.😥

 

 

No Lunho também pude ver uma capela, sem padre, que deixava circular, livremente, a luz, e o ar sobre umas chapas de zinco, e por entre umas colunas de madeira, que sustentavam o teto zincado.

Vi uma cruz na frente daquele local, destinado à oração, mas esquecido para tal fim.Era pois este o indicativo, e só de capela ou algo análgo.Dentro daquelas, e debaixo das folhas metálicas, encontravam-se ao fundo, umas cruzes imperfeitas, com Cristos crucificados, uma Santa,  aparecida na Miandica, que foi transportada para o Lunho, e colocada, nesta mesma capela, em cima de um Nincho. Era a imagem, da nossa sra  de Fátima, de terço a pender das mãos, ar triste, talvez por se encontrar, só no meio de um ambiente bélico, e sem estatutos. Uma chapa de ferro, sobre um bidão, servindo de altar, para a celebração, do Santo Oficio.

Um capelão militar: Um certo dia se deslocou ao Lunho, em Janeiro de 1973, afim de celebrar o Santo Oficio, na capela dos Bidões.

PALAVRAS DO SR. "CAPELÃO"

Uma vêz mais "eis" que não tenho um altar, nem toalhas, nem , cálice,  para a celebração da missa.Estamos em plena guerra , de rigorosa prevenção!.As tropas de Elite, saíram para uma operação, não pode haver ajuntamentos, ou atividades, que não premitiam uma reação, pronta e imediata.Estamos em pleno mato.Éra  o destacamento, mais pequeno, e isolado da companhia. No meio do maior isolamento, e deseloção! Eramos cerca de três dezenas de soldados.Tinha os nervos num feixe,dizia o sr "Capelão" como eles? mas não podia dar a entender.Éra pior  a expectativa, do que a ação planeada, e movimentada, comentou o comandante do destacamento do Lunho. Capitão António Cardoso. Muito perto do destacamento, encontravam-se implantadas, algumas das bases mais importantes, e perigosas, da "FRELIMO" nomeadamentea da Mepotxe.🤨  

 

PONTE DO LUNHO COM O PESSOAL DO 2.º GRUPO DE COMBATE PARTINDO PARA UMA OPERAÇÃO

"COZINHA DO RANCHO PARA PRAÇAS":

Neste acampamento, possuiu além de um refeitório, que não existiu para praças.

"O melhor do Lunho" tomavam refeições os oficiais e sargentos, A cozinha era apegada, e a ligá-la com o refeitório, podia ver-se aínda um buraco, através do qual os pratos passavam.Sobre o dito buraco, existiu um memorial frase lapidar, do seguinte teor.

"DIETA OBRIGATÓRIA"Como efétivamente tinhamos amor à saúde, cumpriamos à risca, a máxima em causa.Mas naquela sala que servia de refeitório, aínda pude ver geleiras, a petróleo constantemente avariadas.Também as máquinas sofriam a influência do tempo, e então quando, o ambiente atmosférico ,ficava mais fresco, tinhamos bebidas frescas! quando aquecia, também ficavam quentes! isto é que era uma concordância!....

Os funcionários que nos serviam, esses também eram os melhores do Lunho. Faltava-lhes  apenas o casaco branco, e as boas maneiras, de todo o empregado, que se batia para a gorja.Um deles ao pedido de uma cerveja, respondia com uma colher de pau, trazia o vinho e assim sucessivamente.

Para completar as refeições, e dado que o jantar era bastante cedo, preparavam-se lautos banquetes, para as três horas matinais.Apetecia um frango no churrasco, desviado mesmo em vida, da machanba, hoje um, à manhã outro, e lá se foram uma dúzia de frangos.O jantar para quem era praça, era servido cedo, porque faltavam condições, para ser servido com luz artificial, necessitando de aproveitar a luz solar.O meio era tão pequeno, que nada se fêz sem se pensar na minima coisa, embora insignificante sem que todos os componentes, do grupo belicoso o soubessem.Chegava mesmo apontar feitos, e não feitos, que em tal nunca pensaram, quanto mais executar.

Vivi muito longe de todos e de tudo, sofri muitas privações, mas estou convencido, de que qualquer situação por mais estúpida, que seja portadora, de todo este meu sofrimento, que pode parecer gratuíto e inútil! Se for encarada de frente, com muita lucidez, pode ser uma fonte de enriquecimento, humano de amadurecimento, e ajudar a compreender, os outros quando estão num "merdeiro" como diriam os franceses.Isto não é um convite à resignação ou uma consulação fácil.É apenas uma reflexão, baseada numa pequena experiência, que partilho com todos, os meus camaradas de armas,  que comigo habitaram o buraco do Lunho.

 

Neste lar sem união, comi carne de vaca, ou de burro, que alguém tinha rejeitado.Eramos visitados duas vezes por semana.Tinhamos direito apenas a 200 kg de viveres, portanto 400 kg para serem consumidos em sete dias.A zona não era explorada, e como tal, só era possivel tragar, o que nos levavam.Bebia-se água férria, quando não havia avaria na bomba, ou no motor, que a fazia mover, ou aínda quando não faltava o combustivel necessário, para a movimentação da máquina.Bebia esta mesma água a temperaturas, que fariam pelar leitões.O vinho da velha cepa, não chegava ao Lunho! chegava sim uns barris de água, do Lago do Niassa com um pouco de tinta vermelha, e outros cheios de vinagre, e água colorida, que era racionalmente, servido por um elemento da secção da cozinha, com uma lata de cerveja cortada pelo meio.Aquele vaso definitivamente provisório, não tinha asa, ou qualquer coisa, do género, por onde se lhe pegá-se.

Como ia dizendo, o homem com as mãos muito sebentas, enfiáva um dedo ou os dedos, muito sebentos, no recipiente, e ia lavando assim as mãos, com o liquido que era distribuído, aos soldados, que em fila ordenadamente, se aproximavam.

Pude beber ainda à troca da pecúnia, a cerveja com carimbo de isenção, mas vendida a preço corrente. Quando a cerveja falhava coisa abitual, bebia Coca Cola, e quando esta falhava, bebia Hi-sepote, quando esta falhava, bebia água, e quando esta falhava passava sede.Claro que havia mais bebidas, mas estas eram vendidas a preço de consumo. 😮 

 

 

"SENTIA O ESTOIRO DAS GRANADAS PERTO".

😮NA DESPEDIDA, EXISTIA UMA AMARGURA, E LÁGRIMAS, QUE NÃO REBENTAVAM.

DEIXAR A BASE PARA A MISSÃO, ERA EMBARCAR, NUM JOGO, DE VIDA, OU DE MORTE.

 

Perto existiu uma base do inimigo, a quem lhe chamavam a Mepotxe, e diziam que ninguém conseguia penetrar, dado que o terreno era rabinado, e fora do mesmo, era impossivel, a progressão.O chefe convocou uma operação, com uma duração de oito dias, para arrazar, a dita base.Reunido o senado, foi feita a formatura, na parada do Lunho, para recebermos todas as instruções, do chefe e Oficiais. A despedida,  dos que fizeram parte da operação, foi marcante.Existia uma amargura, com lágrimas, que não rebentavam.Os que partiam,  abraçavam, os que ficavam para defender o bairro de latas, confortando-nos, e desejando uma boa estadia no mato.Parecia  que partíamos, para muito longe, e nunca mais nos iam ver, parecia que partiamos, para um jogo de vida, ou de morte.Estas despedidas, eram cenas, que comoviam muita gente.Em seguida, lá nos foram distribuidas, as "rações de combate," alimento que nos foi fornecido, para nos poderem manter em pé, nos dias em que tinha de dormir, sob o firmamento, e com as costas ao relento.Lá seguimos os trilhos, atravessando pequenos rios, vales, e serras, em direção à base.Fizemos várias pausas, para almoçar, jantar, e pernoitar.No dia 29 de Janeiro de 1973, conseguimos chegar junto do rio da Mepotxe....

 

                                             " O CONFRONTO"

Seguimos um trilho, que tinha uma inclinação  muito elevada, e no cimo avistámos uma palhota, onde se encontrava um "Guerrilheiro" da FRELIMO de vigia, no interior do seu posto de sentinela.Quando deu pela nossa presença, fugiu em direção à base, para alertar os seus camaradas, de que iam ser atacados. Fizemos a perseguição ao "Guerrilheiro" mas não foi possivel, dado que ele já levava algum tempo de avanço.Cheguei ao cimo do trilho, e lá se encontrava, a base constituída, por mais de trinta palhotas.Fizemos o cerco,  os "Guerrilheiros da Frelimo" reagiram de imediato, com armas ligeiras automáticas.Quando me coloquei por detrás de uma ávore, um dos "Guerrilheiros" deu pela minha presença me apontou a sua arma, prime o gatilho, e disparou uma rajada de tiros, na minha direção, de imediato, me atirei para o solo, e as balas da sua arma, ficaram cravadas, numa árvore.Foi a primeira vês que estive frente a frente, com os combatentes da Frelimo.Reagi com fogo  da minha G3.  eles se puseram em fuga.Eu e os meus camaradas com o Ronson(isqueiro) da picada chegamos fogo às palhotas.Em seguida começamos, a ser bombardeados, pelo morteiro 82, fugi pelo mesmo trilho, quando já vinha a meio, ouvi gritos da base, era o meu camarada, 1.º cabo corneteiro, Fernando Rocha, que ficou só, a queimar as restantes.O bombardeamento do morteiro 82 era bastante intenso, que ao fugir da base, já sentia as granadas, a estoirar muito perto de mim, sintia os estilhaços, a prefurar as árvores. 😮

 

"POSTO DE SENTINELA"

🙂🙂😮😮"RECORDO O DIA 15 DE FEVEREIRO DE 1973"

              POSTO DE SENTINELA  JUNTO AO DEPÓSITO DE GENEROS.

 

No Lunho todos os operacionais faziam serviços de guarda, e reforços nos postos de sentinela e na ponte, para que o pessoal que se encontrava no interior do aquartelamento, estivessem em segurança. Diáriamente ao amanhecer o pessoal que obrigatóriamente eram escalados para tratar das suas tarefas, na cozinha do rancho geral, tratando da nossa alimentação, tinham por hábito tocar um ferro que se encontrava dependurado, num barrote da cozinha, para alertar os soldados ali se encontravam instalados,que era hora do rancho. O dia amanheceu,o sol já se declinava como uma bola de fogo era o momento de tomar o pequeno almoço.Saí da minha caserna com um utensilio com asa para colocar ordenadamente na fila, a fim de ser servido um pouco de café, e pouco de casqueiro com manteiga, como não existia refeitório, segui em direção à minha caserna, senteime-me na minha cama para ingerir aquele liquido negro, que era mais água que pó de café. Pouco tempo depois saquei de um cigarro "FN" para queimar,e fui dar uma volta pela parada que era em terra batida e cheia de buracos,das tempestades,que de vês enquando pairavam no Lunho,  e alagava com muita quantidade de água. O cigarro ia desaparecendo o fumo subia descontraídamente. Fui à secretaria dar uma vista de olhos, na escala de serviço, encontrei o meu nome que estava de reforço,no posto de sentinela junto ao depósito de géneros, que se direcionava para a pista de aviação das 14 horas até às 16 horas. Voltei para a minha caserna,a fim de preparar o material para o respetivo serviço. Conversando com os meus camaradas de caserna, fazendo horas para o almoço peguei numa revista "crónica feminina"  para ajudar a passar o tempo. O ferro da cozinha volta a tocar, eu peguei no meu prato, no talher, e numa lata de cerveja cortada ao meio sem asa por onde se lhe pegue. Fui para a fila ordenadamente para receber a minha refeição, depois do almoço deitei-me um pouco na minha cama a descansar,  olho para o meu relógio, e vi que a hora se apróximava, segui para o posto de sentinela render o meu colega.Fiz a rendição coloquei-me sentado numa tabua em madeira que se encontrava num bidon,encostei a minha arma Jê.3 .Começo a desfolhar as primeiras páginas da revista, parei um pouco para vigiar a zona, quando olho para o fundo da pista de aviação, vejo caminhando pela pista de aviação,uma cabeça de cabelo encarapinhado, era um elemento da guerrilha.Esperei a apróximação do alvo,com todos os cuidados que me ensinaram,abandonei o meu posto,fui em direção do elemento da guerrilha, com a minha arma Jê.3 em posição de defesa.Aquele ser humano além da sua arma não que não chegou a utilizar, trazia consigo uma saca em pano com uns grãos de arroz crú,e uma colher de pau. Os meus camaradas, que se encontravam por perto, assistiram parecia mais um dia de festa acabavam de conhecer um guerrilheiro da Frelimo pela primeira vês.O emcaminhei ao meu comandante de companhia António Cardoso, em seguida voltei para o meu posto de serviço que se encontrava abandonado.A hora do meu serviço tinha terminado um outro camarada,acabava de me render fui em direção da minha caserna colocar o material. Saí  fui visitar o o guerrilheiro,que o seu nome era apenas "SAMUEL" ali nos cumprimentamos,ele me confidenciou que esteve deitado ao fundo da pista de aviação, com a sua arma apontada em minha direção,se o rebelde prime o gatilho da sua arma, era mais um jovem soldado da Metrópole que tombava naquel inferno do Lunho na flor da idade. Se isso tivesse acontecido, eu não estaria aqui a contar esta verdadeira história.

Texto: de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro N.º 017516/72.🙂😥

"FUI PRESO NUM SUBTERRÂNIO":

LUNHO 1973:

 

A Companhia de Caçadores 4141 os gaviões:

Foi feita a integração dos G.I.132  soldados Africanos de raça negra que aderiram à nossa Companhia.Naquele isolamento muitos deles  refugiavam-se no alcoól em excesso.Passados alguns dias eu me encontrava na minha caserna  a descansar deitado na minha cama.Esses soldados foram distribuídos para todos os pelotões.Passado um tempo na caserna do 2.º pelotão onde eu pertencia e habitava existia um soldado negro de nome "Agostinho" um homem rebelde dificil de descrever nos tratando com frazes que eu não vou citar.Eu me encontrava deitado na minha cama querendo descansar  não era possivel porque a algazárra desse rebelde com muitos nervos e alcoól à mistura prenúnciava frazes impróprias  de raiva não aceitando a ideia  de viver no nosso aconchego.

O rebelde  pega na sua arma G3. e aponta na minha direção levantei-me da minha cama saquei do meu cinturão e com a fivéla o atingi numa orelha do lado esquerdo que ficou traçada ao meio.Prontamente o rebelde foi secorrido pelos seus camaradas negros  o encaminhara para o posto de socorros. Passado alguns minutos já se encontrava o comandante da Companhia acompanhado pelo 2.º comandante alferes Curto Ribeiro e pelo furriel do meu pelotão Serafim Afonso o Comandante me deu ordem de prisão.Ordenou que eu entregá-se a minha arma G3.o cinturão e despir a minha camisa fui encamihado semi nú para um subterrânio onde uma cadela tinha parido dez cães dormi junto daqueles animais rodeado de pulgas.A noite parecia muito longa estava muito cassimbo que  gelava os ossos do meu esqueleto. Fui castigado inocêntemente por ser da Metrópole sofri imenso porque o meu Comandante quis dar lugar à psicula.O astro rei já brilhava na parada do Lunho como uma bola de fogo e o badálo do ferro da cozinha tocava para ser distribuido o pequeno almoço.Saí daquele  subterrânio  em direção à cozinha para tomar o café da manhã em seguida fui ter com o meu comandante fiz a respetiva continência e lhe perguntei se o meu castigo já tinha terminado.E como o meu comandante não se encontrava satisfeito me ordenou que fosse em seguida fazer guarda à ponte do Lunho.Não cheguei a compreender que os homens que viviam na rebeldia eram os mais preveligiados só que eu estava inocênte.O meu castigo tinha terminado senti uma grande necessidade de ir  ao posto de socorros visitar o rebelde quando cheguei junto dele abraçou-me com as lágrimas nos olhos e me pediu muita desculpa.Olhei de  frente vi o efeito da fivéla do meu cinturão vi uma orelha unida  com trinta pontos vi um ser humano triste me abraçou. A  partir desse momento passou a ser um soldado negro o meu melhor amigo.Tudo isto se teria evitado se o rebelde não tivesse abraçado conscientemente ou inconsciêntemente a vida da rebeldia.Nunca cheguei a entender porque razão havia gente primitivamente  em pé de guerra.Quem sofreu as consequências fui eu.😮

"A MINHA EVAQUAÇÃO PARA O HOSPITAL DE VILA CABRAL"MÊS DE SETEMBRO DE 1973.

Neste acampamento estive sujeito à alimentação que se verificava senti uma grande necessidade incrivel de tomar vitaminas dirigi-me direi; à enfermaria da Companhia um nome que alguém lhe deu estava muito bem apropriado.  Estava de serviço um membro da comissão veterinária do sexo masculino fui atendido sem refilar porque estava bastante doente débil em seguida o membro da comissão veterinária me admnistrou uma injeção cavalar e um concentrado de comprimidos venenosos não patiei porque não estava tão doente tão débil como ele julgava.Os dias iam passando e o meu estado de saúde piorava voltei novamente ao miserável barraco o veterinário que se encontrava de serviço dando o alerta que eu me encontrava com um forte paludismo.Baixei de imediato à enfermaria deixei temporáriamente de fazer serviços deixei a minha cama e fui para uma das camas da enfermaria para o respetivo tratamento.Foi feito o requesito da sopa da méssi-dos- Oficiais essa sopa era confecionada com vitaminas mas sem ressultados positivos.A visita do chefe da enfermaria ao verificar o meu estado de saúde lançou um (S.O.S) e no dia seguinte ao nascer do dia aterrou na pista de aviação  um pequeno avião para me evacuar para o Hospital do setor "A" em Vila Cabral. Quando o pequeno avião aterrou na pista  do aeroporto já se encontrava uma ambulãncia para me transportar até ao Hospital.Na urgência estava de serviço um membro da comissão veterinária já velho um médico Tenente Coronel chico envergava uma bata branca por cima do seu uniforme ao examinar o meu estado de saúde chamou um veterinário que se encontrava de serviço  ordenou para  admnistrar um litro de sôro neste gajo que ele está pronto para ir para o caixote palavras do médico.Por ordem do médico fiquei 17 dias com baixa numa cama do Hospital sendo admnistrado um litro de sôro diáriamente.Durante a minha estadia de enfermo diáriamente e constântemente ouvia os hélios a descer e a subir transportando camaradas que vinham do campo de batalha gravemente feridos e outros já moribundos.Passado o tempo da minha estadia no Hospital o médico assinou a minha alta Hospitalar. Despedime de todos  os enfernos que se encontravam deitados naquelas camas e me derigi para a Unidade militar de Vila Cabral aguardando transporte para para o inferno do Lunho.🤨

A AMBULANCIA QUE ME TRANSPORTOU DO AEROPORTO DE VILA CABRAL PARA O HOSPITAL DO SETOR "A" ONDE FIQEI NAQUELA UNIDADE 17 DIAS SENDO ADMNISTRADO UM LITRO DE SORO DIÁRIO COM INJEÇÕES DE VITAMINAS:

"MIANDICA TERRA DO OUTRO MUNDO"

😥😥No dia 28 de maio de 1973 chegou ao Lunho a primeira parte do pessoal e das máquinas da 2.ª companhia de engenharia tendo o restante  pessoal chegado nos dias 29 e 30.No dia 31 de maio de 1973 a 2.ª C. Eng./Avançada sediada no Lunho deu inicio à operação teve como proteção do pessoal da C.CAÇ.4141 os gaviões.A 2.ª C.Eng. teve por finalidade a construção de uma picada até ao planalto da Miandica e a reconstrução da pista de aviação e apropriação do terreno para a instalação de uma força tipo Companhia.04  de Junho de 1973 foi detétada e levantada uma mina anticarro na picada do Lunho Miandiaca a cerca de 1500  metros do aquartelamento do Lunho.Em 29 de Junho de 1973 dois grupos do inimigo em cinco elementos cada atacaram em simultánio a frente dos trabalhos na Miandica e emboscaram uma viatura na picada que se dirigia para a frente dos trabalhos na Miandica que se encontrava a cerca de 2 Km sem consuquências.

03 de Julho de 1973 um grupo inimigo entre os 20 a 30 elementos emboscou   uma viatura na picada do Lunho Miandica com armas automáticas ligeiras e pesadas sem consequências para nós.08 de Agosto de 1973 foi detétada e levantada uma  mina anti-grupo na frente dos trabalhos da Miandica.Em 10 de Agosto de 1973 um grupo estimado em 10 elementos emboscou a equipa de picagem na Miandica.Em 04 de Setembro de 1973 foram detétadas e levantadas 2 minas anticarro na picada do Lunho para a Miandica.Em 11 de Setembro de 1973 foi detétada uma mina anticarro na picada do Lunho Miandica.Em 15 de Outubro de 1973 foi detétada e levantada uma mina anticarro reforçada com uma bomba de avião de 15kg na picada do Lunho Miandica no cruzamento com a picada do CHISSINDO.Em 18 de Outubro de 1973 os trabalhos de construção da picada Lunho-Miandica atingiram a pista de aviação na Miandica.Em 01 de Novembro de 1973 um grupo de 06 guerrilheiros da Frelimo atacaram uma viatura de patrulhamento na picada do Lunho Miandica com armas ligeiras automáticas sem consequências.Em 08 de Novembro de 1973 um grupo de 03 guerrilheiros da Frelimo foram surpreendidos pelo patrúlhamento na picada do Lunho-Miandica a implantar uma mina anticarro tendo-se posto em fuga.Em 16 de novembro de 1973 já ao final da tarde e de regresso ao Lunho uma viatura da 4141 transitava com pessoal na picada da Miandica para o aquartelamento do Lunho acionou uma mina anticarro  o pessoal que seguia na berliet foram projetados para o solo prontamente foram assistidos pelo enfermeiro onde tinham ferimentos ligeiros a viatura ficou bastante danificada.

A companhia 4141 os gaviões manteve-se empenhada na proteção aos trabalhos da 2.ª companhia de engenharia até ao dia 20 de Dezembro de 1973 data em que a mesma recolheu a Vila Cabral.A partir daquela data a  C.CAÇ.4141 os gaviões manteve dois grupos de combate a manter a segurança na Miandica o restante do pessoal manteve-se no Lunho.A picada do Lunho tornou-se intransitável passando os reabestecimentos ao destacamento da Miandica a ser apeados ou de helicóptero.🤨

Numa guerra da guerrilha como aquela que Portugal enfrentou em terras de Moçambique,qualquer força de intervensão se tornava extremamente vunerável,sempre que tinha de executar os seus movimentos hábitos e procedimentos.Era esta a situação e perante este perigo que se encontrava a C.CAÇ.4141 os Gaviões,estacionada no buraco mais famoso do Niassa,o "Lunho".Ao ter que realizar diáriamente ao inicio da manhã e ao fim da tarde um percurso de 20 e tal Kms entre o Lunho e a Miandica para reabastecer a 2.ª Comp.ª de Eng.ª que se encontrava a fazer a terra- planagem para a construção de um aquartelamento a fim de ser colocada lá uma companhia de militares. As nossas viaturas ficavam perigosamente expostas às investidas dos guerrilheiros da Frelimo tanto pela forma de emboscadas como de possiveis minas colocadas na picada.

Texto de Bernardino Peixoto.Soldado Corneteiro n.º 017516/72.😥😮🙂

A MORTE DE UM GUERRILHEIRO DA FRELIMO NAS MATAS DA MEPOTXE.

Mas o checa começa a ficar velhinho um dia foi um vunluntário escalado  para tomar parte em mais uma rotineira passeadela pela Mepotex comanda um grupo com todas as precauções teóricas que os seus instrutores lhe incutiram na memória.Nós soldados dado que já eramos veteranos na máta começava-mos a rir e a ver com ar ridiculo as atitudes do checa.Contudo o checa vai mesmo ao objetivo dado que era caloiro.Necessitando de meter gasolina no aparelho digestivo madou montar um pequeno alto para o efeito.O "Zé turra" gostava muito de nos seguir e naquele dia foi mesmo o que sucedeu.Entre os nossos  ouve um que veu aparecer no meio do capim aquelas cabeças de cabelo encarapinhado.Avisa o seu comandante de secção que era das operações dificies fez a pontaria esperou aproximação do alvo e primiu o gatilho da sua G3.na hora exata.

Foi mais um dos elementos subversivos que tinha tombado.Era aínda manhã e o sol não se tinha afastado do horizonte.O "moribundo" trazia na mão além da arma que não chegou a utilizar uma cana de acúcar com a qual tomava o seu pequeno almoço.O cadáver caiu por terra a mão abriu e a cana ficou entre os dedos do "moribundo".O caçador especial que atingiu o rebelde fou procurar a arma e viu a cana viu o sangue de um homem viu o efeito da sua arma G3 viu o que o seu dedo provocou viu um cadavér prostado por terra viu um homem sem vida viu os buracos dos projeteis da sua arma.voltou para junto de nós a transpirar mas sentindo bastante frio que lhe causou arrepios.Sentiu glória sentiu frustração sentiu remorsos sentiu-se mal sentiu uma mistura de reações que acabou por ficar emocionado.A operação termina voltamos ao quartel na hora da chegada parecia mais um grande hotel que um bairro de latas.O homem das operações dificies trás o seu "trofeu" do campo de batalha.Sim foi dificil de descrever o que efetivamente um inofensivo sentiu depois de matar um homem ato esse que que nunca havia praticado.Tudo isto se teria evitado se o homem não tentá-se fujir tudo isto se teria evitado se ele o "moribundo" não tivesse abraçado conscientemente ou inconscientemente a vida da rebeldia.

Nunca cheguei a perceber porque razão havia gente que vivia na mata primitivamente gente que gostava de viver em pé de guerra e só porque não queriam viver à sombra da bandeira verde e vermelha.Sei que esta subversão era do exterior oriunda e alimentada mas quem sofreu as suas funestas foram os que lá viviam foram os inocentes foram os inconscientes fomos todos nós. O caçador especial matou para não morrer"😮🤨

MANUEL JORGE EX-FURRIEL MIL.º DA 2.ªCOMPANHIA DE ENG.
COMANDOU A FRENTE DOS TRABALHOS NA MIANDICA NO ANO
DE 1973.FOI CONVIDADO PARA PARTICIPAR NUM ALMÔÇO DE CONVIVIO DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES EM SINTRA.

AS MINHAS MEMÓRIAS DA GUERRA COLONIAL EM MOÇAMBIQUE "NIASSA lUNHO" 19 DE NOVEMBRO DE 1972 A 23 DE OUTUBRO DE 1974.

(Dia 29 de Janeiro de 1973) esse dia em que fiz parte do assalto à base avançada da Mepótx ( 46 anos passados)
Passaram-se muitos anos a recordação daquele dia 29 de Janeiro esteve sempre presente embora algo difusa em alguns pormenores que o tempo levou consigo como recordação.
Este foi um tempo estacionário sem horizontes vivido dia após dia pela incerteza e a ansiedade resultante da imprevisibilidade das diversas situações em ações de guerrilha no interior de Africa.Num aquartelamento improvisado onde tudo era rudimentar onde quase tudo faltava e onde tudo teria de ser feito melhorando sucessivamente as instalações tendo em vista a segurança daquele reduto para uma estadia que poderia ser prolongada e onde para além de tudo teria de se manter uma atividade operacional regular.
Recordo da primeira vez que vi aquele local!
Olhei as viaturas carregadas de militares novinhos em folha acabados de chegar da Metrópole era a C.CAÇ.4141 os gaviões que íamos povoar as densas e muito perigosas matas do "LUNHO" deslumbrados por nos sentir-mos envolvidos pela natureza Africana.O meu rosto deixava transparecer um misto de medo e receio do desconhecido.Concentrado na observação do meio envolvente alimentando o meu imaginário onde tudo seria possível desde os ataques do inimigo até às investidas das feras camufladas no meio da vegetação ao longo das picadas que nos conduziam aquele local o "Lunho".A coluna militar apróximava-se lentamente e foi então vislumbrei no meio da confusão das viaturas e do pó que nos envolvia aquela clareira rodeada de vegetação com uma construção rudimentar em chapas de zinco e outras em construção artesanal em blocos de cimento e tijolos dentro de um perímetro demarcado por uma vedação com três arames farpados de fácil acesso a qualquer intruso.....
Naquele momento tive uma sensação de apatia total apeteceu-me retroceder mas nesse desalento algo renasceu em mim que me impediu a enfrentar e ultrapassar esta prova de fogo como um desafio às minhas capacidades físicas e intelectuais.
Desde o momento da mobilização sempre julguei estar preparado psicológicamente e operacionalmente para as mais diversas situações não só pela formação e preparação recebida como também pelo empenhamento que assumi ser fundamental para enfrentar as dificuldades num meio hostil e desconhecido.
Muito antes de ser chamado a cumprir o serviço militar tive consciência que iria viver esta guerra por dentro e não através dos jornais.Foi assim com esta "bagagem" que entrei na recruta no Regimento de Infantaria n.º 13 em Vila Real de Trás os Montes no dia 17 de Janeiro de 1972 (1.º turno) tendo escolhido a especialidade de corneteiro no R.2. em Abrantes onde fui mobilizado para Moçambique.Com o decorrer do tempo aquele local o Lunho passou a ser o centro do mundo e a casa de todos aqueles que durante 17 longos meses aguentaram a incerteza do dia seguinte a impossibilidade de pensar o futuro.
Transformaram as tristezas em alegrias no meio da amizade e camaradagem. Ali festejei aniversários Natais de toda a família.Recordo ainda aquelas noites de isolamento total como uma orquestra de ruídos e sonorização de intensidades diferentes que me obrigava a dormir com um olho aberto e a arma G.3 encostada ao corpo.
Não era fácil adormecer e muitas vezes ficava a usufruir da escuridão da noite com os olhos fechados durante algum tempo e ao abri-los ficar com a sensação de vertigem daquele céu cravado de estrelas que se tornava ainda mais luminoso e parecia desabar sobre todos nós.O andamento cadenciado o peso da arma G.3 macerando o ombro o cansaço a transpiração a despontar no meu corpo à medida que avançava o tempo a caminho de uma emboscada sempre prevista mas nunca desejada.Na manhã do terceiro dia levantei-me antes do romper do Sol ingeri alguns alimentos e entretanto foram feitas algumas recomendações aos Soldados para que fossem atentos se possível em silêncio mantendo as distâncias tendo sido alertados para um possível contacto com elementos da guerrilha dadas as situações anteriormente verificadas.
Iniciamos o regresso ao nosso aquartelamento do Lunho sentia ao caminhar a humidade das ervas do capim que persistentemente roçavam pelas minhas pernas encharcando as calças e botas e que rapidamente secavam aos primeiros raios de Sol que começavam a despontar a vegetação.
Nos dias anteriores a progressão pelo mato ao longo dos trilhos decorreu normalmente apesar de um ataque de abelhas e do cansaço que se fazia sentir não só pelas distâncias já percorridas através de serras e vales com arma G.3 e equipamento como também pelo clima quente e muito húmido com um aroma "acre" e doce que exalava da vegetação.Vigilantes caminhava-mos carregando cada um dentro de si alimentando o seu pensamento com ausências sempre presente de pais e irmãos mulheres e filhos namoradas e amigos.Outros trocavam as suas histórias outros haviam que falavam de futebol e também do tempo que teimava em não passar.A operação tinha terminado voltamos ao aquartelamento na hora da chegada parecia mais um grande hotel que um bairro de latas.Os heróis do arame farpado nos receberam com um sorriso e só não deixaram verter lágrimas porque eram homens.
Muitos anos se passaram tenho na minha memória uma horrível recordação que fiquei traumatizado para o resto da minha vida ao ver tombar mortalmente um elemento da guerrilha. Quando fui escalado para fazer parte em mais uma rotineira passeata pela Mepótxe quem comandava o grupo era o furriel Mil.º Raposo das operações especiais que ainda era checa e nós soldados que já éramos veteranos na mata começava a rir e a ver com ar ridículo as atitudes do checa.Contudo o checa nos levou ao objectivo dado que era caloiro o Zé turra gostava muito de nos seguir e neste dia foi mesmo o que sucedeu.Entre os nossos houve um que viu aparecer no meio do capim aquelas cabeças de cabelo encarapinhado.Avisou o comandante de secção que era das operações difíceis.Fez a pontaria esperou a aproximação do alvo prime o gatilho. Foi mais um dos elementos subversivos que tinha tombado.Era ainda manhã o sol ainda não se tinha afastado do horizonte.O moribundo trazia na mão além da arma que não chegou a utilizar uma cana de açúcar com a qual tomava o seu pequeno almoço.O cadáver caiu por terra a mão abriu e a cana ficou entre os dedos do moribundo.O caçador especial que atingiu o rebelde foi procurar a arma viu a cana viu o sangue de um homem viu o efeito da sua arma viu o que o seu dedo provocou viu um cadáver prostrado por terra viu um homem sem vida viu os buracos dos projécteis da sua arma.Voltou para junto de nós a transpirar mas sentindo bastante frio que lhe causava arrepios.Sentiu glória sentiu frustração sentiu remorsos sentiu-se mal sentiu uma mistura de reações que acabou por ficar emocionado.A operação termina voltamos ao quartel o homem das operações difíceis trás o seu troféu do campo de batalha.Sim é difícil de descrever o que efectivamente um inofensivo sentiu depois de ter matado um homem ato esse que nunca havia praticado.Tudo isto seria evitado se o Zé turra não tenta-se fugir tudo isto se teria evitado se ele o moribundo não tivesse abraçado a vida da rebeldia.Foi horrível para mim assistir à morte de um homem que todos nós o capturávamos em vida sem ter que recorrer às nossas G3.
Por toda a vida eu irei recordar todo o cenário de uma "guerrilha" necessitava de muita explicação para os que me acompanharam nesta operação sei qualquer ideia subversiva embora alguns dos responsáveis que foram violentos.Mas como sempre a critica vem ao de cima a nota predominante é o protesto de uma povoação do "Niassa Ocidental" chamado "Lunho"
"Foi duro de roer".
Recordações de um soldado que esteve no "Niassa Lunho" e em "Malema" na guerra colonial Moçambique de 19 de Novembro de 1972 a 30 de Setembro de 1974.
Bernardino Peixoto soldado corneteiro 017516/72.
Esta guerra do Ultramar que eu ainda recordo, hoje sou confrontado com um sentido de abandono e de desprezo. A Pátria que eu como todos os combatentes que lutamos com muito sofrimento, e muito suor hoje é uma Pátria madrasta. Sinto um descontentamento de revolta generalizado sentimento esse que vai ao ponto de entregar a minha medalha comemorativa das campanhas de guerra, que recebi ao Sr. Comandante Supremo das Forças Armadas. Lutei com um clamor imortal sempre em prol de uma Pátria que julguei ser a minha porque foi a minha Pátria que me obrigou para lutar por ela, Hoje essa mesma Pátria olha para mim como um inútil, como um traidor, ou até mesmo como um mercenário.

O BOMBARDEIRO T.6 SOBROVOANDO AS MATAS DO LUNHO:

Bernardino Peixoto e o seu neto Salvador Quintas.

EMBLEMAS DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES

GUERRA COLONIAL MOÇAMBIQUE.

VIAGEM DE COMBOIO DOS CAMINHOS -DE-FERRO DE MOÇAMBIQUE DE NOVA FREIXO ATÉ VILA CABRAL.

OS CORNETEIROS DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES:

CONVIVIO DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES NO ANO DE 1999 EM LEIRIA.

CONVIVIO DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES NA QUINTA DE S.MIQUEL O ANJO EM S.PEDRO FINS MAIA NO ANO 2000.

CONVIVIO DA C.CAÇ.4141 OS GAVIÕES ANO 2001 NA MARINHA GRANDE.

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GUERRA DO ULTRAMAR:

"CAMARADAS"

Não vou aqui tratar deste tema,não é  que o mesmo não me interesse,e sobre ele não tenho posição-,mas irei tratar especificamente a questão da guerra do Ultramar de Portugal,foi um dos principais protagonistas,durante 13 anos (entre 1961 e 1974).Durante esses longos anos,os portugueses lutaram, mataram, e morreram em três "teatros de operações" Angola,Guiné,e em Moçambique.

Aí se envolveram um milhão de portugueses,orindos de todo o então território nacional, aí morreram mais de dez mil soldados.Daí regressaram várias dezenas  de milhares de deficientes,(fisicos e mentais) aí se viveram enormes dramas, mas também algumas alegrias, fruto de derrotas e das vitórias parciais que se obtiveram.Aí se construíram vários heróis abitualmente explorados pelo regime fascista-colonial mas aí se cometeram igualmente autênticos crimes de guerra.Estou à vontade pois andei na guerra do Ultramar em Moçambique no Norte do Niassa no "Lunho" vivi momentos dificies e até dramáticos,mas tive a sorte de não me envolver em nenhuma acção que mais tarde me viesse envergunhar.O 25  de Abril de 1974 veio permitir, a resolução do problema colonial,levando Portugal a reconhecer o direito de todos os povos à autodeterminação e Independência.

O sentimento de que os combatentes,haviam comprido o dever do seu país.Por isso não posso aceitar o contexto veementemente as sucessivas, tentativas saudositas do passado dos ressabiados pela construção da democracia,dos que não aceitam a liberdade, de todos e a igualdade de direitos dos antigos combatentes e antigos colonizados,em trazerem à luz do dia fenómenos de todo em todo importunar os  inaceitáveis.

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